Conhecer Pedalando: O Circuito Vale Europeu
- Bruno Tomio
- 23 de dez. de 2017
- 10 min de leitura

Um dos objetivos do Projeto Conhecer Pedalando é conhecer lugares, belezas naturais, pessoas e culturas, com intuito não apenas de conhecer, mas de divulgar e disseminar as experiências e vivências obtidas nas pretendidas buscas. Buscamos conhecer o proposto por meio da bicicleta quando possível, pois acreditamos que além de seus inúmeros benefícios ambientais e sociais, a mesma também oferece uma experiência e relação com os lugares e as pessoas de forma única e diferenciada dos meios de transportes motorizados. Diante do exposto segue o relato de uma cicloviagem pela região do Vale Europeu, da qual percorreu os trechos e caminhos do Circuito Vale Europeu de Cicloturismo, como também caminhos, atrativos e belezas naturais próximas do mesmo.
A cicloviagem aqui relatada ocorreu entre as últimas semanas do mês de julho de 2017, perpassando pelas cidades de Blumenau, Indaial, Ascurra, Apiúna, Rodeio, Benedito Novo, Doutor Pedrinho e Rio dos Cedros. A cicloviagem percorreu todo o roteiro do Circuito Vale Europeu de Cicloturismo, porém, não seguiu a ordem do roteiro, como também não se limitou ao mesmo, percorrendo caminhos e atrativos para além do circuito. Algumas imagens e detalhes desta viagem podem ser visualizadas no link https://www.facebook.com/media/set/?set=a.1291002044337556.1073741867.764066890364410&type=1&l=317bc8b852 e https://www.youtube.com/watch?v=ka_XaT9yMXk&list=PLrwiQOTBXiTpihDchmtm9ThLtgu6mQbCm . Mais informações sobre o Circuito Vale Europeu são encontradas na página do circuito, http://cicloturismo.circuitovaleeuropeu.com.br/ .
O começo da cicloviagem se deu ao amanhecer da quinta-feira (dia 20), quando novamente desci as escadas do apartamento com a bicicleta carregada de alforjes e bugigangas para mais uma cicloviagem. A descida pelos degraus da escada do apartamento já foi um teste para verificar se as bagagens estavam bem instaladas e armadas na bicicleta. Estando tudo certo com a bagagem comecei a pedalar (de Blumenau) em direção a cidade de Indaial onde entraria na rota (3º dia) do Circuito Vale Europeu de Cicloturismo. Pedalando pela rota do circuito passei pelas estradas que seguem margeando o rio Itajaí Açu, na histórica comunidade do Warnow, onde no caminho ainda é possível ver resquícios dos casarões e de algumas construções enxaimel, infelizmente muitas em estado de abandono e degradação, dos colonizadores alemães que invadiram aquelas terras. Outros pontos de destaque da região são: a ponte de madeira coberta por telhado, técnicas dos emigrantes; a ponte pênsil; as centenárias igrejas luteranas; e as ruínas da antiga estação ferroviária do Warnow, na qual junto com a estação de Blumenau foram ás primeiras estações da ferrovia EFSC, ambas inauguradas no ano de 1909.

Ainda nos caminhos do Warnow tive o prazer de conhecer e conversar com um adorável casal de cicloturistas paulistas que também estavam realizando o circuito. Além das belezas dos caminhos outros dois aspectos infelizmente também chamaram a atenção do casal: o primeiro foi à falta de respeito dos motoristas, o que os deixou impressionados, visto que a localidade é calma e considerada de interior; e o segundo foi o aspecto provinciano e tanto que vergonhoso de alguns dos moradores locais, o casal chegou até comentar que achavam que os moradores da região devem não conhecer as belezas e riquezas do Brasil, devido ao encontrarem vários adesivos “O Sul é meu País” nos carros, principalmente nos que buzinaram e faltaram com respeito aos mesmos. Envergonhado falei para o casal que felizmente não são todos os moradores que possuem tamanha falta de respeito e desconhecimento, porém, adverti que a presença desses tristemente não é incomum. Ainda antes de nos despedirmos e desejarmos boa viagem a todos levamos um buzinada de um senhor que tinha um grande espaço para passar por nós naquela calma estrada de barro, pelo menos o carro não tinha o inditoso adesivo.

Seguindo o circuito passei pelo município de Ascurra chegando a Rodeio. Em Rodeio saí do roteiro do circuito (4º dia) um pouco antes do inicio da subida do Morro do Ipiranga, para conhecer o Parque Municipal Pietro Vota. O parque possui uma bela cascata e uma grande infraestrutura que infelizmente estava em completo estado de abandono. Fiquei impressionado com tamanho abandono e negligencia com determinada estrutura e local, do qual possui vários quiosques, banheiros, construções para bar e cozinha, e até uma grande construção que já havia sido um hotel, tudo em condições deploráveis. Não consegui encontrar informações da causa para situação do local, espero que alguma iniciativa seja feita para reversão do quadro daquele patrimônio público criado por lei municipal no ano de 1977. Após a minha visita ao parque retomei o circuito, onde comecei a subir o Morro do Ipiranga.
A subida pelo Morro do Ipiranga é iniciada por estradas em meio à mata, porém no decorrer do caminho passamos por casas e propriedades de agricultores e moradores locais, e pelo trajeto que é conhecido como o “caminho dos anjos” devido a presença de cerca de sessenta e quatro estátuas de anjos com aproximadamente dois metros de altura espalhas pelo caminho. O destaque do caminho dos anjos é um ponto de parada com uma réplica do Cristo Redentor cercada de anjos. Seguindo a estrada há a opção de conhecer a Pousada de K2 Mil, onde tem a maior tirolesa da América Latina, com a extensão de dois mil metros.

A Pousada K2 Mil possui uma rica infraestrutura, oferecendo vários atrativos e atividades. Na minha passagem anterior pelo local (2015) desci a tirolesa e pernoite no local por meio do apoio dado pela pousada. Já na passagem aqui relatada a pousada estava fechada, funcionando naquele período apenas com agendamento prévio, o que talvez precise ser feito apenas em determinadas épocas do ano. Deixo aqui o meu agradecimento pelo apoio prestado a mim na visita anterior e também pelo apoio oferecido ao projeto após o conhecimento dos gestores da pousada da minha passagem pelo local. Mais informações sobre a pousada e a tirolesa podem ser encontradas nas páginas virtuais da mesma, www.pousadak2mil.com.br e www.facebook.com/PousadaK2 .
Aproveitei em frente da referida pousada para trocar a câmara do pneu de minha bicicleta que havia furado alguns metros antes. Enquanto trocava a câmara e já pensava em aonde pernoitar, um simpático senhor me ofereceu ajuda para o conserto do pneu e também hospedagem em sua casa que há pouco tempo o havia transformado em uma pousada. Aceitei a ajuda do senhor e também a hospedagem, visto que eu não sabia bem onde dormir naquela noite que prometia ser fria, pois foi uma noite após o dia mais frio do inverno, onde queimou várias plantações locais diante à geada dos dias anteriores. Fui muito bem recebido no aconchegante lar do Sr. Roque e da Sra. Marli, ambos me acolheram da melhor e mais familiar forma possível, compartilhando suas histórias de vida e os deliciosos momentos e pratos na mesa de jantar e café da manhã. Mais informações sobre essa simples e encantadora pousada podem ser conferidas nos seguintes endereços virtuais: http://pousadadovaleeurop.wixsite.com/pousadadovale e www.facebook.com/pg/pousadadovale .
Após tomar café na manhã do dia seguinte, enchi o pneu no compressor de um colega do seu Roque e comecei a pedalar até os primeiros 500m, quando estourou a câmara do pneu. O motivo foi porque enchi demais o pneu minutos antes. Depois dessa experiência provavelmente nunca mais encherei tanto um pneu, mas esse não foi o único aprendizado que tive devido o ocorrido. Foi também a primeira vez que remendei uma câmara, visto que a minha reserva eu tinha usado no dia anterior.
Consertado o pneu, segui pedalando em direção a Doutor Pedrinho, no caminho poderia ter visitado novamente a Cachoeira do Zinco, uma linda cachoeira que vale muito a pena conhecer, porém, recomendo agendar a visita brevemente com o proprietário do local, pois não fui o único cicloturista a encontrar os portões fechados e a ser infamado. Perante as minhas últimas experiências no local referido e os relatos que colegas me contaram, preferi pedalar até Doutor Pedrinho.
Quero deixar aqui meus agradecimentos ao Hotel Dona Hilda de Doutor Pedrinho, que me ofereceu uma diária de apoio para com o projeto, não usufruí porque quis continuar pedalando durante aquele lindo dia que me reservava várias belezas e emoções.

Alguns quilômetros depois do centro de Doutor Pedrinho visitei uma das tantas belas cachoeiras do municio, a Cachoeira Véu da Noiva. O acesso à cachoeira é dado por uma trilha de aproximadamente 1km em meio a mata. Recomendo a visita para este magnífico patrimônio natural, são 63m de queda de pura beleza. Ainda próximo à cachoeira há um mirante que nos permite avistar a cachoeira e parte da região, que infelizmente já foi muito mais bela e preservada. Exalto a questão da preservação devido à execução de uma obra local de ampla devastação e exploração mineral, degradando vários hectares, colocando em risco até parte do caminho que leva até a cachoeira. Infelizmente a referida obra é mais um exemplo de que a fé no lucro move montanhas! Pedalei por quilômetros margeando as encostas escavadas em meio as caçambas que desciam e subiam carregadas de minérios.
Depois de passar em meio a toda aquela exploração ambiental, segui pedalando por caminhos bem mais preservados e agradáveis, rodeados de araucárias, até a região de Alto Cedros (5º dia). Na minha trajetória pelo percurso até a referida região vivenciei mais uma de minhas tantas experiências inesquecíveis proporcionadas por viagens de bicicleta. Percorri o referido trajeto no entardecer e anoitecer daquele dia, em meio aquela mata de araucárias sob a luz da imensidão daquele céu limpo e estrelado e ao som de seres que lá compartilhavam aquele tempo e espaço comigo. Vivi sensações e sentimentos que são difíceis descrever, ainda mais após várias outras sentidas durante aquele dia, sensações que apenas podem ser sentidas, compreendidas e internalizadas por quem se permite viver e experimentar.

Após pernoitar em uma das pousadas de Alto Cedros, continuei ao amanhecer do dia seguinte a pedalar pelos belos caminhos de Rio dos Cedros, margeando os lagos e atravessando matas nos declives e aclives do caminho (6º dia). Saí do trajeto do roteiro do circuito para não deixar de visitar novamente uma das mais fascinantes cachoeiras da região, a Cachoeira do Índio, que leva esse nome por ter servido de abrigo aos povos originários. A cachoeira possui cerca de 25m de queda e belos paredões de pedra, podendo ser apreciada tanto na parte superior e inferior da cachoeira, como também no seu interior por meio de uma espécie de gruta atrás das águas que de dela caem. Recomendo a visita para essa belíssima cachoeira, a distância percorrida para visitar o atrativo soma aproximadamente 20km no trajeto de ida e volta para o circuito. A cachoeira “pertence” a propriedade rural da família Kohlbeck, que cobra o valor de cinco reais para visitação.
Voltando para o circuito, continuei a pedalar até uma outra graciosa cachoeira, na qual o seu próprio nome já a define, Cachoeira Formosa. A cachoeira possui uma queda de cerca de 40m de altura, proporcionando uma bela vista e o acesso até o seu cume, podendo até andar sobre suas rochas a beira da queda de água. Adormeci e acordei próximo e com o som dessa bela cachoeira. O local é de fácil acesso, apenas a 1km do circuito e possui uma grande área para camping. Mais informações sobre o local e o camping podem ser encontradas na página Camping Cachoeira da Formosa, https://www.facebook.com/CachoeiraFormosaRanchoMuller/ .


Iniciei o quarto dia de viagem contemplando o amanhecer na Cachoeira Formosa, para logo depois seguir pedalando até a região dos Palmeiras que dá inicio ao 7º dia do circuito, de acordo com o roteiro do mesmo. O caminho do 7º e último dia do circuito perpassa a região do Palmeiras, Cedro Alto, Benedito Novo, encerrando em Timbó, no mesmo local que dá inicio ao circuito. O trajeto é realizado por estradas em meio a mata, como também alguns trecho mais habitados, inclusive asfaltados e até em poucos quilômetros em rodovias. O destaque desse dia fica para a última subida do circuito, localizada no Rio Cunha, após o Cedro Alto. Em minha opinião essa é a subida mais forte e íngreme de todo circuito, porém, toda a subida é recompensada por um grande trecho de descida e pela lembrança de tal percurso, que provavelmente ficará na memória de quem o realiza pedalando.
Já em Timbó, tive problemas com o pneu dianteiro de minha bicicleta, um pequeno rasgado, que aliado com a deterioração dos meus alforjes artesanais, me fizeram decidir voltar para Blumenau para consertar de fato o pneu que remendei de forma enjambrada para apenas tentar chegar até em casa. A minha pretensão era pernoitar na casa de uma amiga em Timbó para no dia seguinte completar os dias 1 e 2 do roteiro, visto que comecei a seguir a rota do circuito a partir do 3º dia do mesmo (em Indaial). No entanto, voltei para Blumenau, realizei os reparos na bicicleta, e voltei pedalando para Timbó no dia seguinte para completar o 1º e o 2º dia do circuito.
Com a bicicleta consertada e sem o peso dos alforjes saí cedo de casa para Timbó, para fazer o percurso dos dois primeiros dias do circuito e depois retornar para casa. O primeiro dia do circuito que inicia em Timbó, cruza a cidade de Rio dos Cedros e passa pelo Rio Ada para chegar a cidade de Pomerode. A maior parte do trajeto é feito por estradas de barro, tendo apenas uma subida um pouco antes de chegar ao Rio Ada. No fim do percurso do 1º dia do circuito passamos pela Rota Enxaimel, um roteiro de aproximadamente 16km com cerca de 50 construções enxaimel, herança histórica da arquitetura alemã trazida pelos colonizadores. A rota é selada pelo Instituto Nacional de Patrimônio Histórico (IPHAN).

Próximo a rota enxaimel há um atrativo fora do circuito que recomendo conhecer, o Morro do Schmidt. O morro é o ponto mais alto de Pomerode, possuindo no seu cume 931 metros de altura, do qual possibilita em dias propícios avistar até o litoral. O acesso ao topo do morro é dado por uma estreita, acentuada, isolada e mal conservada estrada. No topo do morro há apenas uma torre de antena e um pequeno espaço plano, possível de acampar. Não há placas na estrada principal informando o acesso ao morro, que é realizado por estrada secundária após um dos pontos de ônibus da estrada principal. Em minha última visita ao local em 2015, acampei em uma noite e amanhecer chuvoso, na companhia do casal de amigos Fiama e Carlos. Na ocasião devido a forte neblina não conseguimos usufruir da vista que o local oferece, no entanto, tal intempérie não abalou e nem prejudicou a nossa curtida e experiência no local.

A Rota Enxaimel nos leva até o centro de Pomerode, onde encerra o 1º dia e dá inicio ao 2º dia do circuito. O 2º dia perpassa os bairros Wunderwald de Pomerode e o Mulde de Timbó. O trajeto em maior parte é realizado por estradas de barro em regiões povoadas, a recomendação de cuidado e atenção no percurso fica para os seus quilômetros finais quando é necessário para acessar a cidade de Indaial atravessar um trecho de tráfego muito intenso da BR 470. Nesse dia também há um opcional do circuito que indico a visita, o Morro Azul. Mais informações sobre esse belo atrativo da cidade de Timbó podem ser conferidas na matéria que realizamos em uma de nossas visitas ao local, http://conhecerpedalando.wixsite.com/projeto/single-post/2016/02/21/Conhecer-Pedalando-O-Morro-Azul . Destaco a existência de um belo e bem estruturado camping próximo ao topo do morro, do qual pertence ao Parque Natural Municipal que zela por aquele patrimônio natural.
Chegando em Indaial encerrei o segundo dia do circuito, completando como o pretendido, todo o circuito. Completado o circuito, retornei pedalando para casa, encerrando mais uma cicloviagem rica de novas experiências, vivências, sensações e prazeres, da qual a bicicleta me permitiu CONHECER PEDALANDO.
Obrigado e até a próxima!


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